
Quem tem medo do fracasso do Brasil na Copa da Alemanha? Será possível que um time em cuja linha de frente militam Kaká, Ronaldinho, Ronaldo e Adriano pode obter um outro resultado que não seja o título? Como um escrete tão qualificado pode sucumbir à tentação de não ultrapassar a tênue linha que separa o favoritismo do sapato alto? São perguntas que a Imprensa e os torcedores brasileiros ainda não pararam para fazer a si mesmos. É que o clima de euforia por conta da qualidade técnica dos nossos atletas é tão grande que ninguém consegue vislumbrar outra coisa que não seja o hexacampeonato mundial. E isso é um erro crasso.
Eu, que não rasgo dinheiro e por isso não sou louco, também tenho a plena convicção de que o Brasil tem o melhor plantel do mundo e que por isso é franco favorito ao caneco. Mas muito me intriga o clima de “já ganhou” – acreditem, a nosso favor – que nossos próprios adversários alardeiam por aí. Para Maradona é o Brasil contra o resto do Mundo. Beckenbauer diz que é só esperar para ver quem pega a Canarinha na final da Copa. Zidane também engrossa o coro e afirma que todo mundo vai tentar correr atrás do nosso escrete. Nossa Imprensa não se cansa em decantar os feitos do tal Quarteto (às vezes Quinteto, não se esqueçam do Robinho) Fantástico em matérias que transcendem a simples confiança e apelam para uma inequívoca superioridade dos nossos boleiros com relação aos do resto do planeta. E o povão? Esse está nas nuvens. Ora, se o brasileiro veste a camisa e vai para rua até quando a Seleção joga o mais mequetrefe dos amistosos, imagine o que é para ele a perspectiva de ver seu time dar um show anunciado com antecedência em mais uma Copa?
Numa Copa do Mundo o Brasil sempre é favorito, jogando com Ronaldinho Gaúcho no auge da forma física e técnica ou com um obscuro e discutível Paulo Sérgio. Mas isso não significa que sejamos imbatíveis. A Seleção pode ter um assombroso poder de fogo do meio para frente mas tem uma defesa ainda sofrível e um goleiro que, se não compromete, também não inspira tanta confiança. E disso, minha gente, o mundo e Esperidião Amim estão carecas de saber. A confiança no Quarteto é tamanha que às vezes a gente esquece que existem outras seleções na Copa, e que um Van Nilsteroy pode aparecer para matar o Brasil depois de uma falha de Lúcio. Ou que um Henry pode subir sozinho, descoberto pela marcação que Roque Júnior NUNCA faz, e meter a redonda para dentro da nossa cidadela. Nós temos craques? Claro, mas seleções como as já citadas Holanda e França, além da sempre cabulosa Itália, da Alemanha e da Espanha também têm jogadores que podem decidir partidas. Sem contar com a Argentina, que tem para mim o melhor conjunto entre os times que disputarão a Copa.
Também não acredito na baboseira histórica segundo a qual o Brasil entra pelo cano quando chega a uma Copa como favorito e que, proporcionalmente, se dá bem quando vai desacreditado a um mundial. Tabus não têm, por motivos óbvios, qualquer embasamento científico. Mas não custa nada blindar a Seleção contra tanto favoristismo.
Por favor entendam: não se trata de urubuzar o Brasil. Eu torço e acredito piamente na possibilidade de trazermos de vez a Copa do Mundo para cá. Só não concordo com a lavagem cerebral que está sendo feita nas mentes de todo o planeta. Exceto, é claro, naquelas que estão por trás das seleções que podem rivalizar conosco no Mundial, pois elas conhecem nossos pontos fracos. E jogando a responsabilidade em nossas costas ficam livres para surpreender. Trata-se de um belo trabalho psicológico ao qual a comissão técnica da Seleção Brasileira deve ficar atenta. Teoria da Conspiração? Que seja. Em Copa do Mundo vale tudo e se a gente não se ligar entra pelo cano.
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