Quinta-feira, Março 23, 2006

APENAS UM CHATO


À medida que os anos vão passando eu vejo que estou me transformando num chato. Um dos maiores sintomas dessa senilidade precoce é minha indignação com relação às pequenas coisas, pois com as grandes eu nem perco mais o meu exíguo tempo. O exercício felipeano de chatice de hoje é relativo a Luis Fernando Veríssimo e seu consciente mau uso de palavras e definições históricas. Podem ler, está lá no Diario de Pernambuco de hoje o seu artigo "Times" no qual versa sobre uma hipotética pelada em que as equipes se alinhariam de acordo com a posição ideológica.

Começa com a indefectível balela segundo a qual "esquerda" é libertação e virtude, já o termo "direita" significa atraso e maldade quase que genéticos. Incrível que uma pessoa minimamente letrada ainda pense assim, só posso acreditar que é maldade consciente. Bom, mas vamos adiante. Segundo Veríssimo, o personagem Renê, que tenta a todo custo - e sem sucesso - arregimentar pessoas "de direita" para o seu time, é um "reacionário assumido". Outro absurdo, pois o termo reacionário significa, de acordo com o Houaiss "relativo, referente ou favorável à reação". Mas o próprio dicionário, antenado com a modernidade, esclarece que o termo também pode significar, à luz dos novos tempos, "hostil à democracia, antidemocrático; que se opõe a idéias voltadas para a transformação da sociedade; aquele que defende princípios ultraconservadores, contrários à evolução política ou social". Sei...quer dizer então que um militante socialista que brande camisas de Che Guevara, chama Fidel de "presidente" e se nega a comentar sobre os mortos do regime é um paladino da democracia? Ah, bom, então o Veríssimo deve ter acertado. Eu devo ser mesmo um chato.

Mas vá lá. Mais à frente, depois que o pobre do Renê recebe cacetadas de "nãos" dos amigos - todos se recusando a admitir que são "de direita" - eis que surge o Alemão, um rapaz assumidamente "reacionário" que segundo Luis "até retrato de Hitler tinha em casa". Esse é um erro histórico que nem amebas instruídas cometem. Adolf Hitler, como bem se sabe, era um nacionalista paranóico, mas qual era a fundamentação político-ideológica de seu ideário? O socialismo. Sem maiores comentários.

Verissimo até que tenta dar um verniz de igualdade ao negócio todo, uma vez que o Mota, "o mais petista de todos" e incumbido de montar o time da esquerda, também encontrava dificuldades em achar quem se dispusesse a jogar com ele. O autor quer, com isso, incorrer naquela outra balela: a de que não existe mais esquerda e direita. Menos mal é o enunciado não ser totalmente falso, uma vez que no Brasil só existe esquerda de um lado e coronéis de mente atrasada - que eu recuso a chamar de "direita" na acepção da palavra - do outro. Mas essas pretensas boas intenções de Verissimo não colam. Seria muito mais honesto da parte dele dizer os atletas de direita têm vergonha de sê-lo por conta da hegemonia de esquerda existente na classe média, e que os esquerdistas estão pra lá de perplexos por conta dos acontecimentos perpetrados pelo governo que veio libertar o Brasil.

É ficção, eu sei. É brincadeira, também sei. Eu gosto de Luis Fernando Verissimo, tenho cacetadas de livros dele. Mas é que certas coisas "pequenas" não passam mais incólumes pela minha chatice.

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