
Não, eu não sofro desse saudosismo frenético pelos anos 80. Vá lá, eu até gostaria de poder ficar a tarde toda jogando bola na rua ou falando besteira com os amigos, sem ter preocupação com bulhufas, tal qual acontecia na "Década Perdida", mas sem essa de querer todas as cores, cheiros e sons dos Eighties de volta, por favor. Mas há coisas tipicamente oitentistas que fazem um falta danada, e uma banda com o espírito do Ultraje a Rigor é uma delas. Claro que eu gostava dos caras à época, quando era um moleque imberbe, mas ouvir as pérolas da gangue de Roger Rocha Moreira nos dias de hoje tem um sabor especial.
Pensem bem e cheguem à óbvia conclusão: num País tão assolado por bandinhas modernosas e cujas letras patinam invariavelmente pelo existencial-de-merda ou pela crítica-social-de-esquerda-de-bar - passando obviamente pelo romantismo-nerd-da-era-digital - as canções do Ultraje ainda se sobressaem por trazerem mensagens de uma contundência impressionante. Que compositor descolado, nos dias de hoje, escreveria algo tão simples e direto quanto "Ciúme"? Alguém saberia balancear bom humor e sacanagem para compor "Sexo" (que foi lançaada, é bom lembrar, em pleno processo de redemocratizaçao do País)? Que tal as óbvias pancadas no conformismo, como "Inútil" e "Rebelde Sem Causa"? De saco cheio dos políticos? Então tome "Filha da Puta", gritada com todas as letras e obviamente censurada nas rádios da época. Quem vai negar a certeira bordoada nos costumes do Brasil pós-Ditadura feita em "Pelado"? E o mais sublime: nesses tempos brabos onde grassa o politicamente correto, quem teria colhão suficiente para gritar "Eu Gosto é de Mulher" sem receber chapuletadas de ONGs e outros patrulheiros de plantão? Roger é um compositor diferenciado, uma espécie de Nelson Rodrigues do rock nacional. Fez críticas sociais como nem Renato Russo e Herbert Vianna (para citar os dois mais prolíficos compositores da época) conseguiram, e com o charme de nos fazer rir da desgraça. Falou de putaria como nenhum outro teria coragem de falar (fazer todo mundo faz, né?). Atualmente a banda reformulada - só Roger e Serginho remanescem da clássica formação, e mesmo assim este último só voltou mais recentemente - até tem conseguido emplacar algum espaço na mídia por conta do Acústico MTV, mas tudo graças às inesquecíveis canções perpetradas nos anos 80. E para nossa infelicidade o Sr. Rocha Moreira é hoje absurdamente tido como uma coisa menor na história do rock brasileiro, em cujo Olimpo só é permitida a entrada de "gênios atormentados" como o próprio Renato Russo e Júlio Barroso. Sinal de que não temos mesmo salvação.
Na foto acima, a clássica formação do Ultraje a Rigor: Leospa (bateria), Roger (guitarra/voz), Serginho (guitarra) e Maurício (baixo).
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