Segunda-feira, Janeiro 09, 2006


Que eu sou uma espécie de papa-biografia todo mundo sabe. Acontece que invariavelmente leio sobre pessoas cujas vidas e obras de alguma forma me interessam, como Bob Dylan, Maradona, Bob Marley e por aí vai. Quando o livro de memórias de Danuza Leão aterrissou sobre o meu colo (cortesia da minha sempre antenada mulher), confesso que já estava curioso, mesmo não tendo qualquer vínculo sensorial-imagético-afetivo com a figura. Curioso pelo simples fato de Danuza ter, todos sabem, vivido uma Vida com esse "V" maiúsculo mesmo, permeada por glamour, dureza, grandes paixões, tragédias singulares, um enredo de filme, enfim. E some-se a essa história fascinante o fato de o livro ter sido escrito com o texto peculiaríssimo de Danuza, cheio de bom humor e fina ironia. "Quase Tudo" (título genialmente bolado por Millôr) funciona como um delicioso mosaico de tudo que aconteceu no Brasil e no Mundo dos anos 50 para cá, tudo entremeado pela cativante figura de Danuza. E sobram belas histórias "lado B" da sociedade e do poder, como a revelação de que João Goulart tinha uma namorada stripper, que Marlon Brando teve um caso gay e que colocou o nome do primeiro filho - Christian, aquele que matou a mulher ou a mãe, sei lá - por conta dessa paixão, entre outras. Celebridades atemporais como Kim Novak, Miles Davis, Juscelino e até Mao Tsé Tung também cruzaram o caminho de Danuza. Mas o fio condutor do livro são os três casamentos da modelo-promoter-jornalista: o primeiro com Samuel Wainer (o homem que, sem exagero, revolucionou a Imprensa brasileira), depois com Antônio Maria e por último com Renato Machado. Os detalhes - muitas vezes sórdidos - dos relacionamentos são expostos sem qualquer pudor, mas sem que isso ofenda nenhum dos envolvidos. Renato Machado, por exemplo, recebeu o maior queima-filme, mas tudo na maior elegência, típica de Danuza: ela afirma que a relação foi para as cucuias por conta do apreço exagerado do apresentador do Bom Dia Brasil por um rabo-de-saia. E há as tragédias, claro, pois até nisso a vida de Danuza foi agitada. A maior foi a perda do filho Samuca, num acidente de carro com a equipe da TV Globo, onde ele era repórter. Tem ainda os detalhes da luta de Nara Leão (aos mais desavisados: a musa bossa-novista era a única irmã de Danuza) contra um câncer na cabeça, e que foi perdida após alguns anos. Vale a pena conhecer a vida de quem a viveu para valer, de peito aberto, pronta pro que desse e viesse. "Quase Tudo" não deixa de ser uma lição para muita gente que não vive.  Posted by Picasa

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