E para não deixar desapontada a legião de leitores do GG, pesquei um velho conto meu. Espero que curtam.
DIVÃ
Há muito Dr Peçanha ansiava por aquele momento. Entrou no consultório do Dr Vasquez-Rivas e sentou-se ao divã. Um psicanalista fazendo análise.
- Procópio Peçanha. O que lhe traz aqui, colega?
Dr Peçanha achou meio estranho estar do outro lado do jogo. Pelo menos relaxou ao sentir que o divã do Dr Vasquez-Rivas era bem confortável.
- Acho que estou precisando de uma análise, doutor...
- Bom, disso eu não tenho dúvida. Mas o que o trouxe? Digo, porque diabos você veio até um psicanalista?
Dr Peçanha ajeitou-se no divã. Tinha deitado meio de lado e isso poderia suscitar algumas interpretações nada lisonjeiras sobre sua masculinidade. Leu isso em algum lugar.
- Olha Dr Vasquez, eu acho que vim apenas dar uma reciclada.
- É mesmo? E porque?
Teve vontade de dizer “porque meu pai foi um filho da puta comigo a vida inteira e minha ex-mulher nunca entendeu minha necessidade por relações extra-conjugais, além de meu filho ser um pé no saco com aquela mania de tocar guitarra em casa”. Mas tinha que se conter.
- Bem, porque eu acho que seria uma boa discutir algumas coisas com um psicanalista. Eu sou humano e tenho angústias, doutor. Quero aprender a lidar com elas.
- Hmmm....você foi maltratado quando criança?
- Bem, meu pai às vezes me batia. Mas só quando eu colocava o gato dentro da geladeira.
“Gato dentro da geladeira”, pensou Dr Vasquez-Rivas. “Uma clara demonstração de inclinações sádicas”, e emendou:
- É mesmo? Que impacto você acha que esses episódios tiveram na sua vida?
- Impacto? Não sei....acho que aprendi que lugar de gato não é dentro da geladeira. Mas também acho que as surras tiveram um valor negativo. Sabe aquela coisa da imposição da figura paterna sobre a pobre criança indefesa?
- Sei...
- Acho que isso teve um impacto nas minhas relações com o resto do mundo. Principalmente com o gerente do meu banco e com a minha sogra.
- Huhum...
Dr Peçanha parou um pouco para pensar. Será que o desgraçado do Dr Vasquez-Rivas não estava dormindo? Sim, porque ele mesmo sempre dormia quando tinha sessão com aquele arquiteto perturbado que queria reprojetar a existência e mesclar funcionalidade e estética nos seus relacionamentos.
- Dr Vasquez?
- Diga...estou ouvindo
- Eu acho que a felicidade é um artigo em falta na sociedade contemporânea. O sr concorda comigo?
- Em termos, Peçanha. Você foi maltratado quando criança, não foi?
- Sim, eu já disse que meu pai às vezes batia em mim...
- Pois então...você veria a felicidade com outros olhos se não tivesse acontecido.
- Acontecido o quê?
- As surras. O gato dentro da geladeira.
- É mesmo?
- Claro. Agora continue falando...como são seus relacionamentos com as mulheres?
Golpe baixo. O Dr Vasquez-Rivas cutucou a ferida mais notória do Dr Peçanha: o sexo oposto. E agora? Tinha que falar.
- São ótimos...enquanto duram. É que eu tenho um probleminha, doutor. Eu não consigo entender nem praticar a monogamia.
“Maníaco sexual”, pensou Dr Vasquez-Rivas, para depois falar:
- Explique direito, homem...
- É difícil, doutor. Eu fui casado por doze anos mas não conseguia ser fiel à minha mulher. Qualquer rabo-de-saia era motivo para um par de chifres na coitada. Mas acho que ela deveria ter sido mais compreensiva comigo. Ela foi muito radical.
- O que ela fez?
- Me chutou para fora de casa porque me encontrou com a irmã do japonês da tinturaria. Mas acho que ela ficou brava mesmo porque a menina estava usando o short que eu tinha comprado para ela fazer ginástica...
- Sei....
- Isso me atormenta, doutor. Está certo que minha ex-mulher era uma chata de galocha mas eu não sei se sou capaz de encarar um relacionamento monogâmico...o que há de errado comigo?
- Os motivos estão na infância. Lembra das surras do seu pai?
- Claro. Doíam pra caramba...
- Do gato dentro da geladeira?
- Sim, sim...
- Isso é uma metáfora de sua incapacidade de ser fiel. O gato representa a astúcia de sua mulher, que você sempre tentava tolher jogando na geladeira.
- E as surras?
- Representam o macho dominador sempre incentivando a novas aventuras.
- Peraí. Incentivando novas anventuras? Por meio de porrada? Não estou entendendo, doutor...
- Claro que sim, mas isso é caso para uma outra sessão. Por sinal, o seu tempo está já acabando.
- Mas Dr Vasquez, ainda faltam cinco minutos. Eu tenho direito a cinco minutos. Nesse tempo eu posso falar muita coisa...
- Não importa. Você me deu a chave de toda sua personalidade em dez segundos. Para que mais cinco minutos?
- Que chave é essa?
- As surras. O gato dentro da geladeira.
- Peraí, mas isso define a minha vida inteira?
- Claro. É uma metáfora de sua vontade de ocultar as coisas, mesmo depois que você acabe pagando por isso...
- Nunca tinha pensado por esse viés...
- Pois agora pense. E veja como você vai entender melhor a sua vida.
- Bom, muito bom. Eu vou indo então. Como a gente acerta a questão financeira?
- São R$ 400 por mês por duas sessões semanais. Você conhece a tabela.
Teve vontade de dizer “que roubo!” mas depois lembrou que era o preço que ele mesmo cobrava. Mesmo assim não deixou de alfinetar.
- Essas consultas são caras, não é? Quando será que a psicanálise vai se popularizar e os pobres vão ter direito a deitar nesse divã bonito aí?
Dr Vasquez-Rivas deu uma risada sem graça. Aquele era um cliente teoricamente diferenciado, mas que tinha os mesmos sintomas de seus pacientes comuns. Inclusive o jeitão de quem chega procurando a salvação em dois meses.
“As surras. O gato. Está tudo explicado”