Quarta-feira, Agosto 17, 2005

TO BE OR NOT TO BE?

Hoje me peguei pensando como pessoas como eu fazem tudo para que as coisas - musicalmente falando - fiquem ainda mais difíceis do que já são. Ter uma banda de rock, nos moldes mais primitivos do termo, já é um certo suicídio comercial. Cantar em inglês então é ter tanta chance de sobrevivência no mercado quanto o brasileiro que foi detonado no metrô de Londres teve ante os meganhas da Rainha. Tudo bem, o mercado nacional até que se familiarizou com o som guitarras altas, mas ainda não com algo que não seja a língua pátria.
Quando eu comecei a compor, por volta dos 14 anos, a maioria das minhas "letras" (se é que dá pra chamar aquelas tosqueiras assim) era em português, mas eu já rabiscava algo no idioma de Bush. Daí em diante eu só fiz esquecer a língua nativa. O Dreadful Boys, que todos vocês conhecem, cantava majoritariamente em inglês (isso em 92, 93), mas lembro que antes da banda acabar a gente já tinha algumas canções em português, resultado da nossa pouca idade e da pressão que a então nascente cena mangue exercia.
Claro que eu consigo compor em português, mas só de gréia. Os clássicos d´Os Cômicus (parcerias com Wilfred e Jorge), d´Ur Bocomoco e os sambas-fuleiragem do início dos anos 90 (sim, antes da moda) não podem, definitivamente, entrar no rol do meu "trabalho sério". Hoje eu me sinto confortável com o fato de militar no rock cantado em inglês, mas já cheguei a ficar cabreiro com isso. Para se ter uma idéia, Teles - o único crítico em atividade no Estado que realmente entende de música - dizia que o Dreadful Boys era uma boa banda, "mas que cantava em inglês", e isso me deixava encucado. Paradoxalmente, eu comecei a me sentir aliviado ao ler uma entrevista que Caetano Veloso concedeu a Geneton Moraes Neto para a Continente Multicultural. Caê (íntimo, hein?) diz em um certo trecho que achava a coisa mais legítima do mundo o fato de Raul Seixas no início da carreira querer se vestir como Gene Vincent e cantar rock em inglês, pois ninguém era obrigado a versar sobre o Senhor do Bonfim e a baianidade nagô. Bela opinião, meu filho. Não entendo o complexo de Ariano Suassuna de (grande) parte da Imprensa nacional, segundo o qual " é preciso resgatar a identidade nacional". Deixa isso para o Instituto Tavares Buril, eu prefiro fazer música da forma que eu achar mais legal.
Esse papo todo é porque eu ainda tô tentando tirar do forno o segundo disco do Badminton, que tá quase todo gravado, e vem invarivelmente na língua de Madonna. Mas se a rapaziada quiser eu traduzo as letras. Vai ser legal cantar "Mudando de Lugares", "Canção Fina", "Sabor do Século", "Praga Constante", entre outras.

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