Quinta-feira, Julho 07, 2005


Existem canções de amor e CANÇÕES DE AMOR. As primeiras, com suas melodias doces, apenas nos fazem cantarolar despretensiosamente e, a depender do gosto do ouvinte, ensaiar um "que musiquinha mais baba". Já as últimas têm o arrebatador poder de nos sacar da realidade e nos fazer pensar sobre o...amor. Esse é o caso de "I Believe", de Stevie Wonder.
Essa canção fecha majestosamente o não menos sensacional "Talking Book", de 1972, no qual Maravilha, aos 22 anos, tocou quase todos os instrumentos. A delicada letra é de autoria de Yvonne Wright, irmã da então mulher do cantor, Syreeta Wright, e tem belas passagens como "the many sounds that meet our ears/ the sights our eyes behold will open up our melting hearts and feed our empty souls", e a contundência do refrão "I believe when I fall in love with you, it will be forever".
E a música que Wonder criou para a bela letra é um caso para cinema: tem uma melodia tão serena quanto improvável para os padrões da então emergente música pop. A interpretação do negão também é para arrepiar o cocoruto das moçoilas, e fica difícil imaginar uma que não tivesse caído em seus braços numa hipotética situação "ei, baby, ouve isso aqui que eu fiz para você". "I Believe" é uma singela canção de amor, mas que também evoca o lado sexy do negócio, muito diferente dos novelescos e assépticos "eu te amo" dos ditos cantores românticos. Lá pelas tantas, Wonder começa a repetir exaustivamente o genial refrão, em meio a uma confusão de vozes sussuradas e gritos, e você fica resignado esperando o fade out que fatalmente virá. Mas não se trata de um artista qualquer, muito menos de uma canção pop convencional, e a surpresa vem quando o cabra dá uma guinada sensacional na música e tasca outro refrão, totalmente diferente da melodia inicial, e que se repete - agora sim - até o fatídico fade out. A frase: "Come on, let´s fall in love/ You´re the one that I´ve been waiting for/ Don´t you wanna fall in love?". Coisa de quem entende, e muito, do traçado dessas duas maravilhas da vida: música e mulher.
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